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04/05/2020

Rumo ao “novo normal”

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Clarissa Lins, do IBP, e Adyr Tourinho, da ABESPetro, comentam atual conjuntura e o futuro da indústria de óleo e gás


A ABESPetro e o IBP estão empenhados em buscar soluções conjuntas para superar a crise sem precedentes por que passa a indústria de óleo e gás. Se, por um lado, o foco na adoção de medidas para preservar a saúde dos empregados é um consenso entre as duas principais entidades do setor, por outro, divergências sobre questões comerciais tendem a aparecer. A presidente do IBP, Clarissa Lins, e o diretor-presidente da ABESPetro, Adyr Tourinho, concederam entrevista conjunta à Brasil Energia sobre a atual conjuntura e o futuro da indústria.

Passado mais de mais um mês de isolamento social no Brasil, quais as principais lições aprendidas?

CL – O primeiro aprendizado é a capacidade de mobilização e pré-disposição de cooperação para compartilhar as melhores práticas de saúde, proteção dos colaboradores e prestação contínua de serviços essenciais. O IBP formou um comitê de crise, a ABESPetro se juntou, e, com isso, podemos aprender, reagir e influenciar mais que individualmente. Como indústria, o aprendizado é que a incerteza é tão grande que não dá para trabalharmos com horizonte de planejamento de uma forma regular. 

AT – Algo que ficou muito forte foi o espírito de colaboração. Cada vez mais as restrições de mobilidade se tornaram uma barreira, assim como o surgimento de casos sintomáticos, e a combinação disso passou a gerar dificuldade cada vez maior de manter as operações. O legado desse trabalho é a colaboração e o sucesso que estamos alcançando na condução da crise, com prioridade nas pessoas e na integridade das operações.

Já é possível perceber o que é preciso ser corrigido?

CL – Talvez um dos grandes aprendizados seja como preparar as empresas e a indústria, de forma geral – quem sabe a sociedade e governos – a riscos de altíssimo impacto e baixíssima probabilidade. O outro é como aumentar a resiliência. Se pudéssemos fazer diferente, certamente trabalharíamos como uma indústria que sobrevive cada vez mais a preços mais baixos, com capacidade para resistir por um longo período a um efeito adverso como este de um barril em torno de US$ 20. 

AT – Se há uma lição que estamos aprendendo é que, sozinhos, não podemos sair desta crise. Temos que estar preparados para reagir. As empresas que conseguirem sair deste abismo em que estamos agora sairão mais fortalecidas e pré-dispostas a trocar experiências.

Apesar da imprevisibilidade, os senhores têm uma projeção sobre o novo patamar de preço do barril?

AT – Estamos vivendo uma nova crise de oferta e demanda, mas  em uma escala totalmente diferente. A OPEP+ fala em uma redução de 9,7 milhões bopd. A produção mundial estava em 100 milhões de bpd. A estimativa da Agência Internacional de Energia é que a redução de demanda chega a 30%. Quando a mobilidade retornar, a demanda reprimida vai voltar; trata-se de um pico anormal. Mas, ainda assim, há uma situação que é real no mundo, de oferta maior que a demanda. Com relação a preço, como é uma questão que não controlamos, não nos prendemos muito nisso. 

CL – O efeito do acordo da OPEP+ ainda não chegou ao mercado, o que faz com que os preços se mantenham deprimidos porque não há não nem a perspectiva do padrão da retomada da demanda, nem o benefício da redução da oferta. Além disso, há o “efeito preço”: a demanda está inelástica, tão flat que não reage mais a preços. Dada a fragilidade da economia global e as consequências em termos de interrupção de atividades, quebradeira de empresas, falta de acesso à credito e de liquidez, não apostamos, hoje, em preços robustos nos próximos dois anos. Se vai ser US$ 20/barril, US$ 30/barril, US$ 40/barril, não sabemos. Agora, não há quem preveja preços acima de US$ 50/barril neste biênio. A grande lição é saber como se preparar e como operar neste ambiente de preços muito deprimidos.

Qual será o impacto dos cortes no Brasil? 

AT – Empresas que têm projetos onde o break even exige preço de barril mais elevado, como ativos do pós-sal e de revitalização de campos, vão encontrar grande dificuldade de viabilizar a implementação de seus planos de investimentos e mesmo de sobreviver durante a crise. Os  projetos de pré-sal têm grande probabilidade de seguir; talvez possam ser postergados um pouco, mas vão acontecer. O problema é que, no curto prazo, a indústria de bens e serviços ganharia fôlego justamente com os projetos que serão mais afetados pela redução do barril, como os sistemas de pós-sal, revitalização e desinvestimento da Petrobras. 

CL – Temos feito monitoramento contínuo do anúncio das reduções de capex e opex das grandes operadoras globalmente e, em média, os cortes tem sido de 30%, incluindo a Petrobras. Na nossa visão, esses cortes de 30% são os primeiros, refletindo a queda do barril para US$ 35. Se o barril ficar em US$ 20/ US$ 25 e a retomada global seguir um padrão “U”, poderemos ver mais cortes pela frente. É um cenário de grande preocupação. É claro, que cada empresa tem seu próprio portfólio e vai se debruçar sobre isso, analisando suas obrigações. 

Como a ABESPetro e o IBP enxergam e trabalham a retomada das atividades?

CL – O primeiro foco aumentar nossa capacidade de testagem. A retomada só pode se dar preservando a saúde dos colaboradores e aumentando, portanto, a capacidade de testagem da indústria e reduzindo as incertezas sobre populações contagiadas interagindo com populações não contagiadas.

Esse é um posicionamento de consenso da indústria?

CL – Diria que sim. O que estamos fazendo agora é trabalhar em um protocolo de normas que possam ser compartilhadas entre as empresas, justamente no que diz respeito à testagem para volta e continuidade do trabalho, com segurança necessária. Criamos um subcomitê dentro do comitê de crise, que está com ênfase nesse tópico. Além disso, temos empresas que atuam em outros países que já preparam sua retomada e que estão compartilhando práticas sanitárias e de proteção individual para os escritórios. 

AT – Empresas como a Baker Hughes, na qual trabalho, estão retomando as atividades em alguns países. Existem protocolos que teremos de adaptar para realidade do Brasil, mas isso está bem encaminhado. [Desde a última crise], as operadoras tiveram recuperação de margens e de rentabilidade, mas a realidade é que as empresas de bens e serviços ainda sofrem bastante com margens extremamente comprimidas. Na Abespetro, nossa preocupação é que a solução natural de uma crise econômica tende a ser “vamos apertar a cadeia de fornecedores”, mas, hoje, não temos mais esse espaço que havia no passado. As operadoras vão ter dificuldade com o atual preço de petróleo, mas não adianta querer resolver passando a conta só para o setor de bens e serviços. Será preciso diálogo, uma conversa muito forte porque, sem a cadeia de bens e serviços, as operadoras também não sobrevivem. Vamos ter que encontrar, juntos, uma solução. Não dá para um passar o problema para o outro.

O IBP e a ABESPetro têm algum tipo ação junto ao governo para garantir linhas de crédito para pequenas e médias empresas operadoras e fornecedoras?

AT – Essa é uma das prioridades da Abespetro. Muito provavelmente, vamos sair com um grupo de trabalho para tratar especificamente sobre a questão da retomada, com ações concretas que iremos propor para diminuir o impacto econômico nas empresas de bens e serviços. E, com as operadoras, de novo, será preciso ter diálogo porque, se passarem a conta para as empresas de serviços, muitas não sobreviverão. E não vou dizer que serão somente as pequenas e as médias. Algumas grandes poderão repensar seu posicionamento no país porque são globais e avaliarão onde terão retorno mais atraente, e é isso que queremos evitar. 

CL – O IBP tem por princípio não se envolver em questões comerciais entre diferentes elos da cadeia de valor. Sobre a retomada, onde temos uma participação ativa, é absolutamente fundamental a manutenção de um ambiente de negócios estável, previsível e competitivo. Toda a nossa abordagem junto ao governo não é via linha de crédito, mas em relação ao nosso velho mantra de que temos que manter as regras existentes para posicionar o Brasil, em âmbito global, em posição competitiva e atraente para os investimentos. Nesse contexto, voltamos a pedir que os avanços obtidos nos últimos anos não sofram retrocesso e que, na medida do possível, possamos avançar mais em agendas-macro que confiram ainda mais competitividade, como adotar o regime único de concessão. 

A sucessão de crises políticas que o país vive em meio à pandemia e a queda do preço do barril eleva o Risco-Brasil?

CL – O Risco-Brasil está precificado, alto e crescendo. Os ruídos políticos acabam interferindo na imagem do Brasil como sendo um local seguro e previsível para fazer negócio. 

AT – Somos uma indústria de longo prazo. Quando uma operadora faz um investimento em um projeto no pré-sal, está fazendo uma projeção de 20 a 30 anos, então a variável mais relevante é a credibilidade em honrar os contratos. Há uma precificação de Risco-Brasil, mas também uma confiança de que o país seguirá honrando contratos, e, nesse ponto, Abespetro e IBP têm um posicionamento muito parecido. 
 
A crise imporá transformações à indústria de óleo e gás?

CL – Os comportamentos vão mudar. Nossa capacidade de entender melhor até que ponto somos resilientes, respeitar a ciência e apostar mais em colaboração e cooperação como sociedade e indústria. Entendo que o foco é saúde e que teremos de encontrar formas de nos  adaptarmos a um “novo normal” que ainda não sabemos como será.

AT – Definitivamente, a transformação digital, que sempre foi um tabu na nossa indústria, está acontecendo. Clientes que, antes, não deixavam os dados de perfuração saírem de suas redes, mudaram totalmente. Se não fosse dessa maneira disruptiva, talvez demorássemos mais duas décadas. Isso aconteceu no prazo de um mês, e acho que vai ficar. Haverá uma aceleração exponencial na transformação digital. A tecnologia está trazendo benefícios e eficiências que não experimentamos antes desta crise.

O futuro do petróleo persiste?

CL – Até onde a economia precisar de densidade energética, do jeito que precisamos, sim.

Fonte: Brasil Energia | Claudia Siqueira