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08/01/2019

Petrobras Muda Área De Exploração E Produção

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A Petrobras surpreendeu o mercado ontem à noite ao anunciar a saída da diretora-executiva de exploração e produção, Solange Guedes, que será substituída no cargo por Carlos Alberto Pereira de Oliveira. A mudança na cúpula da principal diretoria da estatal acontece depois de Solange ter sido confirmada no cargo em um comunicado da própria companhia divulgado na sexta-feira.

Solange era uma das principais lideranças da Petrobras na renegociação do contrato da cessão onerosa e acumulava 33 anos na empresa. Oliveira, o novo diretor, tem 38 anos dedicados à companhia e ocupava até então a área de gestão de portfólio, de parcerias e de desempenho, dentro da diretoria de exploração e produção. No comunicado de ontem, a Petrobras não detalhou as razões para a saída de Solange, mas disse que Oliveira será submetido aos procedimentos de governança da estatal.

Até então, a petroleira havia anunciado as saídas dos diretores de desenvolvimento da produção e tecnologia, Hugo Repsold Júnior; refino e gás natural, Jorge Celestino; e do diretor de estratégia, organização e sistema de gestão, Nelson Silva. Para os seus lugares foram escolhidos, respectivamente, Rudimar Lorenzatto, Anelise Quintão Lara e Lauro Cotta.

A escolha desses três diretores, anunciada sexta-feira, sugere que o atual comando da estatal, nas mãos de Roberto Castello Branco, se prepara para deslanchar a venda das refinarias, segundo fontes. Iniciada ainda na gestão Pedro Parente, a abertura do mercado de refino faz parte da plataforma econômica do governo Jair Bolsonaro.

Anelise ocupava o cargo de gerente-executiva de aquisições e desinvestimentos. Já Lauro Cotta é um executivo com grande bagagem no mercado de derivados e que também pode contribuir para o plano. Uma fonte da administração da estatal diz que Anelise traz, para sua pasta, a experiência obtida nos últimos dois anos na estruturação e execução de venda de ativos. "É um movimento simbólico [sobre a importância do refino para o programa de desinvestimento]", afirma a fonte.

O plano de negócios da Petrobras prevê venda de ativos que somam US$ 27 bilhões até 2023. Na semana passada, Castello Branco, ao tomar posse, disse que os ativos de logística e de refino e distribuição serão objeto de análise "para inclusão no programa de gestão do portfólio da companhia com vistas ao desinvestimento". "No futuro próximo não estaremos sozinhos na indústria do refino", disse.

Para a pesquisadora da FGV Energia, Fernanda Delgado, a principal missão de Anelise será destravar a venda das refinarias. Em abril de 2018, a Petrobras anunciou a intenção de vender uma fatia de 60% nos polos das regiões Sul e Nordeste. A alienação das quatro refinarias (Refap/RS, Repar/PR, Rlam/BA e Rnest/PE), contudo, foi paralisada por força de uma liminar do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, que proibiu a venda do controle de subsidiárias estatais sem o aval do Congresso.

O formato do plano de venda das refinarias da Petrobras é contestado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que em dezembro abriu investigação sobre eventual abuso de poder dominante da estatal no refino. O Departamento de Estudos Econômicos do Cade, na ocasião, defendeu que a alienação parcial desses ativos não cria concorrentes plenamente independentes.

"Se a intenção na venda dos referidos ativos é a criação de um ambiente concorrencial vigoroso, entende-se ser oportuna a sugestão de que se faça uma venda de ativos por completo", aponta a nota técnica do Cade, que também sugere a necessidade de algum tipo de desinvestimento no Sudeste.

"Existe uma pressão por parte da sociedade e das instituições, como o Cade, para que se abra o refino. Há uma expectativa de que esse plano de desinvestimentos da Petrobras possa ser revisitado. Para quebrar o monopólio, tem que haver um número maior de ativos à venda. A Petrobras vai ter que mostrar um modelo de negócios mais detalhado e a indicação de uma técnica competente como a Anelise pode fazer esse processo andar", comenta Fernanda.

Os nomes dos três diretores indicados na semana passada mantêm, em certa medida, o perfil da composição da gestão anterior, na avaliação de uma segunda fonte da administração da companhia. As saídas de Hugo Repsold Júnior e Jorge Celestino Ramos, ambos funcionários de carreira da estatal, foram compensadas pela entrada de outros dois nomes do quadro técnico da empresa: Rudimar Lorenzatto e Anelise Lara.

A diferença, no caso da troca de Celestino por Anelise, está na trajetória interna na companhia: enquanto o ex-diretor fez sua carreira no abastecimento, Anelise possui uma bagagem maior nas áreas de exploração e produção e, mais recentemente, na gerência encarregada das vendas de ativos.

A fonte destacou que, com a indicação de Lauro Cotta, para a diretoria de estratégia e gestão, por sua vez, o comando da Petrobras mantém a opção de trazer um nome de fora, com um olhar mais distanciado, para pensar a empresa no longo prazo. Quando criou a diretoria, em 2016, a Petrobras já havia optado por um nome externo: Nelson Silva, ex-diretor da Vale e ex-presidente da BG. Assim como Silva, Cotta também acumula experiências numa multinacional, no caso a holandesa SHV.

Fonte: Valor | André Ramalho