ABESPetro - Apostem: ainda seremos o país do PRESENTE

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09/02/2018

Apostem: ainda seremos o país do PRESENTE

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Foi assim que o novo presidente da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Petróleo (ABESPetro), Cláudio Makarovsky, concluiu a entrevista exclusiva à revista TN Petróleo, na qual falou sobre o novo momento vivido pela entidade e a retomada do setor de óleo e gás. A perspectiva positiva do engenheiro químico, que é head de óleo e gás da gigante Siemens, está respalda na experiência acumulada no setor petrolífero e no conhecimento dos principais players de um mercado que passou por grandes transformações na última década. 

ASSIM COMO faz na cozinha, onde o executivo dá lugar ao chéf Maka, ele procura `temperar´ tudo com doses parcimoniosas de cautela e otimismo. Segredos de um líder que é apontado como um multiplicador – aquele que consegue captar e incentivar a inteligência no capital humano das organizações nas quais atua. O que deve ter contribuído para sua eleição como presidente da ABESPetro, que pela primeira vez, desde a sua criação, em 2004, teve oito candidatos disputando os seis cargos da diretoria. Ainda que reconheça que 2018 será um ano ‘curto’, devido às eleições e que o momento é de cautela, Makarovsky afiança que o “Brasil ainda tem muito a ensinar ao mundo do petróleo, em termos de tecnologias, como as desenvolvidas para atender ao pré-sal”. Por isso desafia os investidores a fazerem suas apostas no país.

TN Petróleo – A ABESPetro ganhou forte projeção nos últimos anos, por sua atuação ativa nas discussões e ações para a retomada da atratividade do setor petróleo do Brasil. Prova disso é o fato de seu antecessor (Jose Firmo) ter sido eleito para a presidência do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP). A entidade também teve uma eleição altamente disputada (oito candidatos para seis vagas). Esse é um novo momento para a ABESPetro?

Claudio Makarovsky - Sem dúvida, Jose Firmo e a diretoria, apoiada pelo experiente secretário executivo, Gilson Coelho e associados, conseguiu de fato aculturar os principais stakeholders sobre a importância da indústria de bens serviços para o setor de E&P e, por conseguinte, obteve o destaque merecido. Em função desta visibilidade e coerência, veio a credibilidade e a responsabilidade em fazer melhor - razão pela qual outros grandes nomes se sentiram na obrigação de dar sua contribuição e se candidataram. Tudo isso gerou um processo que trouxe bons aprendizados: por exemplo, foi criado um Grupo de Trabalho para congregar os construtores e operadores de FPSOs, uma vez que o Brasil detém 35% desse mercado mundial. Entre 2018 e 2019, nove novas plataformas serão construídas para produzir seu primeiro óleo em 2021 e 2022. Os FPSOs para Sépia e Mero I já foram contratados, como eu já mencionei, e já estão em fase de licitação os FPSOs de Búzios V e dos projetos I e II de revitalização de Marlim.

Firmo foi bem-sucedido e assumiu o comando da principal entidade do setor, que sempre foi comandada por executivos de petroleiras. O que deixa para você um enorme desafio. Qual sua proposta e metas para levar a ABESPetro ainda mais longe?

Operacionalizar o novo Repetro, flexibilizar a Cláusula de P,D&I agilizando a contratação para novas criações locais, revitalizando o Parque Tecnológico do Fundão, por exemplo. Implementar o GesFor, que é uma nova ferramenta, uma forma mais moderna, ágil e pratica de promover a cadeia de fornecedores, auxiliando novos entrantes e fomentando os exportadores. Também queremos trabalhar forte em uma política de Estado que impulsione a inovação e bonifique o gerador local de engenharia, tecnologia e soluções competitivas. Em resumo, vamos buscar formas de destravar investimentos para fazer a roda girar e em maior velocidade. Temos condições de auxiliar o Estado a arrecadar os US$ 11 bilhões em royalties gerados a partir do aumento de 1% no fator de recuperação de campos maduros decorrentes de investimentos em potenciais de US$18 bilhões estimados pela Agencia Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) – conforme publicado em janeiro pela agencia no livreto Oportunidades no Setor de Petróleo e Gás Natural no Brasil - Rodadas de Licitações 2017-2019. Afinal, as empresas especializadas em recuperação de campos maduros estão na ABESPetro.

Qual a análise que você faz desse momento? Quais as vantagens e desvantagens?

Entre as principais vantagens eu destacaria: preço do barril do petróleo, que está passando dos US$70; o fato de a Petrobras não ser mais operador único no pré-sal; previsibilidade nos leilões até 2019; a existência de um diálogo mais maduro entre as entidades de classe, no sentido de flexibilizar e chegar à um consenso em relação ao Conteúdo Local; extensão do Repetro até 2040; nova negociação do excedente da Cessão Onerosa; contratações de sistemas de produção (projeto piloto) de Sépia e Mero1; inserção nos debates do aumento do fator de recuperação e do descomissionamento; nova Lei do Gás em pauta; ingresso de fundos de private equity no mercado de Midstream se associando a players do O&G; novos entrantes no mercado e a volta de super majors, como ExxonMobil; governança e maior transparências na forma de fazer negócios.

E quais os pontos que ainda geram incertezas?

Há alguns aspectos importantes que precisam ser equacionados: a reforma tributária é urgente. Há dificuldade de financiar a maior operadora. Temos problemas de juros e câmbio. Não há uma política de Estado para ‘provocar’, incentivar a indústria de bens de classe mundial, que é naturalmente competitiva e exportadora. Temos ainda um ano eleitoral, sem previsibilidade, um novo Projeto de Lei de Conteúdo Local tramitando e ainda uma curva de aprendizado da aplicação da Lei 13.303 (nova Lei das Estatais). Há ainda a pressão por uma economia sem carbono ao mesmo tempo em que o governo norte americano vem incentivando a exploração e produção de petróleo e gás.

Você disse que o ano de 2018 terá apenas seis meses, devido ao fato de ser um ano eleitoral, e a principal cliente do setor, a Petrobras, só poder realizar concorrências para contratação de bens e serviços no primeiro semestre. Qual a perspectiva de mudança desse cenário nos próximos anos, com a entrada de tantos players inclusive no pré-sal e oferta permanentes de áreas? Isso ainda demora dez, 20 anos?

Por lei não se pode contratar nesse período. Na prática, ano eleitoral é de apreensão. Ainda mais com uma crise sem precedentes e um histórico setorial local que dispensa comentários. Existe uma sequência de atividades pós-leilão, que envolve serviços de associados da ABESPetro (sísmica, avaliação etc.), mas que pode demorar de seis (primeiro terço dos investimentos) a 10 anos após a declaração de comercialidade de um campo até chegar na UEP (unidade estacionária de produção), quando ocorrem as contratações de maior volume junto aos fabricantes de bens e serviços – no 1/3 mais visível dos investimentos.

Quais as principais demandas no curto prazo, além dos FPSOs, que são as grandes encomendas e principal foco dos fornecedores? E nos médio e longo prazos?

As perfurações dos campos unitizados devem começar no início de 2019. Em outubro se iniciou a campanha de aquisição de dados sísmico 3D, com nodes, na área de Libra, no cluster do pré-sal da bacia de Santos e do Ceará, região que deve ser ofertada na 15a rodada da ANP este ano. Também foi liberada a campanha 3D na bacia de Santos e autorizada uma campanha 4D da Shell no Parque das Conchas, na parte capixaba da bacia de Campos.

E em termos de unidades de produção e equipamentos e serviços subsea?

A Modec foi contratada para afretar dois FPSOs (Sépia e Mero I), com cascos na China e módulos e carry over (transporte de casco) no Brasil. Fabricantes de equipamentos com longo prazo de entrega (turbinas, compressores, e-houses etc.) já começam a ser contratados. Em breve saem os pacotes de SURF (Subsea, Umbilicals, Risers e Flowlines). Statoil recebeu licença ambiental para perfuração de poços na área do bloco exploratório BM-S-8, onde está a descoberta de Carcará, no pré-sal da bacia de Santos e está iniciando os testes, gerando expectativas de contratações no mercado. A Petrobras também lançou recentemente um BID para contratar drill pipe risers para campos do pré-sal operados pela empresa. A concorrência prevê sistemas com capacidade para suportar pressões de até 5 mil psi, em até 2 mil m de lâmina d’água.

O cronograma de leilões de blocos exploratórios é apontado como fundamental para manter o mercado ABESPetro. Até quando as indústrias podem se manter se os leilões ocorrerem dentro desse cronograma? Qual o fôlego que esse cronograma dará ao setor?

Cada projeto de E&P se bem-sucedido gera demandas por até 40 anos. Podemos resumir a reposta com o exemplo de Libra, que mostramos no quadro abaixo. 

Qual a expectativa da ABESPetro em termos de novos investimentos, uma vez que a entidade reúne empresas do porte da Siemens, Aker, Schlumberger, entre outras?

O momento ainda é de cautela pois alguns investimentos realizados, pensando na continuidade do modelo de aquisição de ativos, nos replicantes, FPSOs da cessão onerosa e sondas da Sete Brasil, nunca se pagaram – e muitos foram abortados. Sem uma política de Estado que garanta continuidade, estabilidade e previsibilidade, não veremos novos investimentos.

Como a ABESPetro vê a questão do conteúdo nacional, que vem sendo revista sob a ótica não somente das petroleiras, mas também dos fornecedores? 

Vivenciamos uma flexibilização de todas as entidades no tema CL, pois o que todos buscam é atividade no setor. 100% de CL com 0 de atividade = Zero. Somos a favor do CL que não onere o operador. Temos uma indústria madura com CL de fato. Um exemplo dessa expertise é o fato de as 17 árvores de natal molhada (ANM) para o campo gigante de Liza, descoberta da ExxonMobil na Guiana, estarem sendo fabricadas pela TechnipFMC no Brasil.

Qual a mensagem final que você daria ao mercado?

O Brasil ainda tem muito a ensinar e mostrar ao mundo do petróleo em termos de tecnologias, como as desenvolvidas para desenvolver o pré-sal, aonde os poços têm uma produtividade de mais de 30 mil barris por dia e breakeven que baixou dos US$55 para US$35 e agora pode chegar a US$29 o barril. Apostem: ainda seremos o País do presente.

Fonte:  TN Petróleo I Beatriz Cardoso